domingo, 17 de janeiro de 2021

JULIA JACKLIN - Crushing (2019)


Começo o ano com o segundo álbum da australiana Julia Jacklin, nascida e criada entre as montanhas e a cidade grande, produtora de óleos essenciais a certa altura da vida e residente no (meu) Panteão das Vozes Doces, ao lado de ilustres como a Aldous Harding e a Angel Olsen. De facto, "Crushing" lembra-me várias vezes estas cantoras, o timbre rouco a atacar com a mesma mestria canções despidas (Convention), tensas (Body), urgentes (Pressure to Party) ou melancólicas (When the family flies in). Como também me lembra os Mazzy Star de Hope Sandoval (outra para o Panteão) na excelente "Turn me down", não pela semelhança vocal mas pela interpretação, capaz de arrepiar todos os pêlos do corpo - literalmente todos - ao minuto 4.25. 

Mas este disco é muito, muito mais do que uma reciclagem ou uma cópia; é um perfeito pedaço de emoções, interpretado de forma exímia e sincera por alguém que domina os tempos do coração e o ritmo das palavras, e que merece ser reconhecido como uma das melhores coleções de canções dos últimos anos. 

No que me toca, sei que nunca me esquecerei da primeira vez que o ouvi: foi numa noite quente de setembro, quando me chamaram ao terraço para dançar ao som da "Don't know how to keep loving you", a lua no alto e as mãos no meu pescoço. "Gostas?" Foi amor à primeira vista. Outra vez.


quinta-feira, 29 de outubro de 2020

BOOGARINS - Sombrou Dúvida (2019)

"Sombrou Dúvida" dos Boogarins mantém-se como uma das minhas obsessões de 2020, mais ainda por me ter devolvido o prazer de ouvir uma banda que amei no primeiro album e cuja genialidade da estreia me parecia (irremediavelmente) perdida. Assim como o gajo novo que alguém convida para os jogos da bola e faz uma primeira exibição de luxo, mas depois se revela meio cepo e deixas de lhe passar a bola, ou como os Tame Impala.
Por mero acaso, a reintegração dos craques de Goiânia no meu onze inicial coincidiu com o confinamento lusitano, resultando engraçada a coincidência do disco abrir com a frase "as chances de eu sair daqui são nulas", embrulhada entre acordes repetitivos (como a vida entre quatro paredes) e fragmentos de pensamentos existenciais (tão típicos durante a habituação a novas rotinas). Como também será coincidência Benke Ferraz revelar, no tema seguinte, que desconfia dos hábitos e nos confidenciar, ainda mais à frente, que já não espera os outros para ser - uma boa dica para não desesperar.
Tudo isto sobre um fundo sonoro que corta e cose guitarras psicadélicas com pedaços eletrónicos e ritmos hipnóticos para nos e(n)levar num transe contínuo que é quase bossa-nova em "Invenção", Tame Impala vintage em "Dislexia ou Transe", labirinto claustróbico em "Nós" ou melancolia pura em "Desandar" e "Te Quero Longe". A viagem termina com Ferraz a garantir-nos que combina connosco e a convidar-nos simpaticamente para (mais) um passeio. Como não acredito em coicidências e ele pediu com jeitinho, vou aceitar e ouvir do início. Outra vez.  

segunda-feira, 12 de outubro de 2020

IDLES - Ultra Mono (2020)

Para quem já desespera pelo regresso dos concertos, como eu, aqui está um daqueles discos que nos permite fazer a festa, lançar os foguetes e apanhar as canas sem sair do quarto, WC, sala, varanda, ou onde se sentirem melhor a saltar e espernear - também resulta bem no carro, mas cuidado com a cabeça. E se os primeiros discos dos IDLES não foram para mim amor à primeira vista mas antes aquela garrafa de vinho que se vai apreciando mais a cada golo, o novo Ultra Mono explodiu nos meus ouvidos como a alegre bezana que todos nós já experimentámos uma vez (ou muitas) e em que nos sentimos confiantes, assertivos e imparáveis. Assim como a bola cor-de-rosa que está a rebentar o nariz do senhor da capa. 
Atitude é palavra de ordem nos IDLES e frases como "kill 'em with kindness", "ne touche pas moi, this is my dance space!" ou "fuck you, I'm a lover" são debitadas pela banda de Bristol com a mesma energia punk de pérolas como "like Flava Flav in the club ridin' on the back of John Wayne", caso paradigmático em que uma imagem valeria certamente por mil palavras. Quem quiser dar largas à imaginação pode também espreitar esta pequena atuação que inclui homens crescidos em tronco nu, calças de licra coloridas, pêlos faciais descompensados e um boné circa Wayne's World. 
Já li algumas publicações que exaltam o ativismo dos IDLES como a melhor coisa do rock atual e outras que relacionam a raiva das músicas com mensagens ocas. Eu cá digo-vos que já não berrava refrões, abanava a cabeça até me doer o pescoço e ponderava crescer um bigode há algum tempo, por isso vou parafrasear o vocalista bigodudo e dizer apenas "I want to cater for the haters - eat shit". O gajo dos Jesus Lizard, que canta em algumas músicas e é um cota duro para caraças, aprova.


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Maira Gall