domingo, 7 de fevereiro de 2021

BLACK COUNTRY, NEW ROAD - For the first time (2021)

Saiu finalmente um dos (meus) discos mais esperados de 2021, o álbum de estreia dos Black Country, New Road (é mesmo assim, com pausa a meio). Não sei se a montanha reproduzida na capa fica realmente nas West Midlands ou na Arrábida, mas sei que: 
- Esta troupe de sete me cativou logo com o (primeiro) single, em 2019; 
- Fiquei com um sorriso nos lábios quando os vi no cartaz de 2020 de Paredes de Coura, felicidade fugaz posteriormente estraçalhada por quem-nós-sabemos;
- A amálgama de guitarras + saxofone + teclas + spoken word é do caraças.
Ao longo de seis músicas, o combo de meninas e meninos confunde pós-punk, jazz e klezmer numa emulsão dramática, tensa e visceral que ressoa através da voz de Isaac Wood, ora em modo crooner à beira de um ataque de nervos, ora contemplando as suas próprias palavras enquanto (nos) avisa ser invencível com aqueles óculos de sol. Um tipo com pinta, como o Scott Walker e o Richard Hell.
As influências de bandas como os Tortoise, Slint e Black Midi (de quem são amigos) estão bem presentes em "For the first time", sobretudo ao nível das dinâmicas rítmicas, mas esta aproximação/apropriação é sempre concretizada com personalidade e mestria, oferecendo-nos verdadeiras pérolas como "Athens, France", "Opus" ou a sublime "Science Fair".
A cereja no topo do bolo é poder confirmar a excelente reputação dos  Black Country, New Road ao vivo e ir vê-los à ZDB no dia de Todos-os-Santos (€10), esperando que por essa altura quem-nós-sabemos já tenha ido dar uma volta ao bilhar grande.

domingo, 31 de janeiro de 2021

B FACHADA - Rapazes e raposas (2020)

Ponto prévio: o B. Fachada é um dos meus cantautores portugueses favoritos, ombreando (sem carga de ombro) com outros génios da prosa cantada como Fausto, Sérgio Godinho e afins. Um clássico nacional, portanto, que infelizmente parece/permanece teimosamente circunscrito a um reconhecimento menor. 

A primeira vez que o ouvi apresentou-me uma analogia entre gajas sem pêlos e homens sem barba enquanto dedilhava despreocupadamente uma guitarra, qual bardo cool que constata óbvias certezas mundanas. Daí a descobrir que o sentido de humor e aquela maneira única de cantar, hoje apropriada por uma miríade de clones de Fachada, andavam de mãos dadas com deliciosas histórias do quoitidiano foi um pequeno passo, e aquele imaginário folclórico e surreal ganhou em mim um adepto indefectível.

Assim, foi com expetativa que me lancei ao mais recente "Rapazes e raposas", lançado no Bandcamp - plataforma que conheci, precisamente, com a analogia dos pêlos/barba -  após alguns anos de hiato. E se é certo que seis anos é muito tempo, também é certo que valeu a pena a espera: descobrir este disco foi como comer "o" cabrito assado em forno a lenha da minha avó depois de uma valente caminhada nos montes da Aldeia, com cada garfada a saber melhor que a anterior e a revelar novas nuances de sabores e odores já bem conhecidos. 

Um B. Fachada clássico apuradíssimo, portanto, que abre com um regabofe bom, ganha balanço com uma ode aos chatos desta vida e vai por ali fora com a fotografia de uma família feliz, o cheiro a queimado do pão acabado de fazer, as contas do Diabo (na Cruz?), outra ode aos chatos e mais uma aos lambe-cus, a constatação de que mais vale uma a sério do que vinte ou trinta a solo (dica: reparar nos sinais da cara-metade), recordações do quantos-queres e da redondilha cruzada, prognósticos antes do jogo e faunos do jardim com bruxas do pomar. E eu sempre a lamber os beiços do molho do cabrito, enquanto agradecia a todos os herbívoros que arriscam diariamente a sua vida e a dos seus para o bem de carnívoros, omnívoros, necrófagos e talhantes. A natureza é realmente radical, sobretudo quando soa a Fausto. Bernardo, faz-nos um favor e não demores tanto tempo para o próximo, ok? 

domingo, 17 de janeiro de 2021

JULIA JACKLIN - Crushing (2019)


Começo o ano com o segundo álbum da australiana Julia Jacklin, nascida e criada entre as montanhas e a cidade grande, produtora de óleos essenciais a certa altura da vida e residente no (meu) Panteão das Vozes Doces, ao lado de ilustres como a Aldous Harding e a Angel Olsen. De facto, "Crushing" lembra-me várias vezes estas cantoras, o timbre rouco a atacar com a mesma mestria canções despidas (Convention), tensas (Body), urgentes (Pressure to Party) ou melancólicas (When the family flies in). Como também me lembra os Mazzy Star de Hope Sandoval (outra para o Panteão) na excelente "Turn me down", não pela semelhança vocal mas pela interpretação, capaz de arrepiar todos os pêlos do corpo - literalmente todos - ao minuto 4.25. 

Mas este disco é muito, muito mais do que uma reciclagem ou uma cópia; é um perfeito pedaço de emoções, interpretado de forma exímia e sincera por alguém que domina os tempos do coração e o ritmo das palavras, e que merece ser reconhecido como uma das melhores coleções de canções dos últimos anos. 

No que me toca, sei que nunca me esquecerei da primeira vez que o ouvi: foi numa noite quente de setembro, quando me chamaram ao terraço para dançar ao som da "Don't know how to keep loving you", a lua no alto e as mãos no meu pescoço. "Gostas?" Foi amor à primeira vista. Outra vez.


© Caverna Mágica
Maira Gall