"Sombrou Dúvida" dos Boogarins mantém-se como uma das minhas obsessões de 2020, mais ainda por me ter devolvido o prazer de ouvir uma banda que amei no primeiro album e cuja genialidade da estreia me parecia (irremediavelmente) perdida. Assim como o gajo novo que alguém convida para os jogos da bola e faz uma primeira exibição de luxo, mas depois se revela meio cepo e deixas de lhe passar a bola, ou como os Tame Impala.
Por mero acaso, a reintegração dos craques de Goiânia no meu onze inicial coincidiu com o confinamento lusitano, resultando engraçada a coincidência do disco abrir com a frase "as chances de eu sair daqui são nulas", embrulhada entre acordes repetitivos (como a vida entre quatro paredes) e fragmentos de pensamentos existenciais (tão típicos durante a habituação a novas rotinas). Como também será coincidência Benke Ferraz revelar, no tema seguinte, que desconfia dos hábitos e nos confidenciar, ainda mais à frente, que já não espera os outros para ser - uma boa dica para não desesperar.
Tudo isto sobre um fundo sonoro que corta e cose guitarras psicadélicas com pedaços eletrónicos e ritmos hipnóticos para nos e(n)levar num transe contínuo que é quase bossa-nova em "Invenção", Tame Impala vintage em "Dislexia ou Transe", labirinto claustróbico em "Nós" ou melancolia pura em "Desandar" e "Te Quero Longe". A viagem termina com Ferraz a garantir-nos que combina connosco e a convidar-nos simpaticamente para (mais) um passeio. Como não acredito em coicidências e ele pediu com jeitinho, vou aceitar e ouvir do início. Outra vez.